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As assistidas do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública possuem inúmeras histórias tristes a relatar. A violência doméstica e familiar é o maior dos combates enfrentados em prol das mulheres.

Maria menciona que conheceu João por acaso. Não possuíam coisas em comum. Falas, trejeitos, modo de portar, absolutamente nada dele a agradava. Entretanto, o conquistador se mostrava um gentleman, de tudo fazendo para alcançar o amor da vítima. Cedendo aos encantos do galanteador, Maria resolve começar relacionamento amoroso. Em apenas três meses, o casal apaixonado, resolve viver em união estável.

Conta a vítima que viviam um sonho de amor. Ela, que laborava fora, mulher independente, acabou tendo que deixar o emprego para acompanhar o marido nas viagens que ele fazia a trabalho. Houve percepção que ele ficara feliz por ela deixar de trabalhar, passando a depender financeiramente dele. Tudo começara a mudar. Junto há cinco meses aconteceu certo clamor por parte dele para que engravidasse. E foi testada: “Se eu perceber você continua com a cartela (de anticoncepcional) é porque não me ama.” Mais uma vez, com a finalidade de agradar, resolve ficar grávida. O que não estava bom fica muito pior. Com a gestação, o homem fica agressivo, começa a sair sozinho para a balada, e o ciúme toma conta da relação. Ela percebe episódios de traição. Maria se enxerga como propriedade de João, que fazia apenas o que ele pretendia. Com a dependência financeira, ela sofre demasiadamente, faltando o básico para o ambiente familiar. As humilhações foram muitas…

Agressões físicas são constantes. O homem apaixonado mudara totalmente o jeito de proceder. O príncipe virara sapo? Algumas ocasiões a fizeram lavrar boletim de ocorrências, que em nada redundava. O relacionamento sempre retornava. Por diversas vezes, ela decidia pela separação. No entanto, quando o companheiro a procurava para retornar, ela acreditava em seu arrependimento, e aceitava as desculpas. Todas as situações fizeram a mulher confiar que ele não voltaria a repetir as agressões. Ledo engano! A cada retorno, as violências se intensificavam. Maria estava em violências domésticas diárias. Já era comum. Do nada, aconteciam tapas, empurrões e pontapés. A família, amigas e amigos nada podiam fazer. Não havia como substituir a vontade da mulher. A decisão da cisão deveria partir dela.

Há aproximadamente 01 (um) ano, o homem, como de costume, foi estapear a companheira e atingiu a boca da filha do casal, ainda bebê. Neste momento, Maria leva um choque, e começa a vislumbrar a realidade da sua vida. Sentiu-se extremamente covarde em ver a filha com a boca ensanguentada. A partir desse dia, a “venda” que lhe tapava os olhos foi retirada, e ela conseguiu quebrar o ciclo da violência, saindo dessa danosa convivência.

Relacionamentos abusivos podem ser detectados de início. A força de João para que Maria por ele se apaixonasse… O contentamento dele em ela se tornar dependente financeira… A obrigatoriedade de ela engravidar para provar o amor…

Quando advém cerceamento da liberdade e a mulher passa a se portar de forma diferente de como agiria normalmente, apenas para agradar ao parceiro, pode ser indício de violência doméstica e familiar. Não pode existir felicidade na falta de alvedrio para agir.

Na atualidade Maria é outra mulher. Pode ir e vir com a sua filha como sempre pretendeu. Sente alegria em poder cozinhar peixe em sua casa, o que era defeso em tempos remotos. Afirma categoricamente: “O despertar demorou, mas quando aconteceu foi lindo! Eu sobrevivi como uma águia (…). Eu cresci diminuindo. Não importa o que sofri. Importa que sobrevivi.”

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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