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set

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Não é normal

Dentre as muitas violências domésticas que tive conhecimento, através do labor diário, algumas histórias ficaram marcadas. Maria é o nome fictício de uma vítima que conseguiu sair do ciclo de violência, após muita amargura.

A vítima era dez anos mais nova que o seu algoz. João, extremamente galanteador, para ganhar a confiança e o amor de Maria, não economizou carinho aos amigos, amigas e familiares da sua vítima. Ela se apaixonou pelo jovem que parecia vindo de contos de príncipes e princesas. Algumas dicas de que o relacionamento seria difícil foram dadas durante o namoro. Todavia, ela, que havia sido educada para o casamento, sequer percebeu. Segundo conta, namoraram menos de um ano para convolar núpcias. Durante o noivado, algumas situações de choro eram presenciadas pela família da noiva. Entretanto, nada retirava dela a vontade de viver eternamente aquele amor. Quando ainda namoravam, um dia de sol, ele brigou na rua, do nada, por achar que um desconhecido passou olhando para a sua amada. Quando contou o episódio a algumas pessoas, acharam comum. Diziam: “É ciúme, coisa que passa com o tempo.”.

Casaram-se. E em lua de mel tudo deve ser lindo. Estavam passeando por uma praça, quando ele começa a implicar dizendo que ela olhava para o pipoqueiro. Sentaram para jantar em um restaurante, momento em que o homem passa a afirmar que estaria olhando para um rapaz sentado na mesa ao lado. A mulher começa a perceber que em todos os lugares, na visão dele, sempre estaria olhando para algum homem. Não importava a idade, condição social, raça, credo etc. De acordo com o ciumento, a mulher olhava com desejo para todos do sexo masculino.

A forma encontrada pela esposa, diante de tanto ciúme, foi passar a olhar para baixo. Em todos os lugares havia alguém que ela contemplava. Na família dele era pior. O marido costumava dizer que, como era invejado por todos, a tendência seria os seus parentes se interessarem por ela. Os tios, primos, cunhados, amigos próximos, todos, sem exceção, a olhavam com cobiça. Virara paranoia?

Não há como saber. Quando o primeiro filho do casal nasceu, a mulher imaginou que o ciúme poderia ir embora. Como a sua atenção estaria voltada para o bebê, não poderia estar olhando para os outros. Ledo engano. Tudo é motivo para um ciumento. Agora, os homens se aproximavam dela com a desculpa de ter contato com a criança. Um dia o problema se acentuou, quando ele passou a imaginar que o seu próprio pai poderia estar “de olho” em sua mulher, ao brincar com o neto no colo dela.

Vários foram os constrangimentos sofridos. A companheira era sempre a culpada. Apenas ele via o que nenhuma outra pessoa poderia ver: “A mulher olhando e paquerando todos os homens que com ela teriam contato.” Em uma festa de natal em família, quando a união solidária deve a todos e todas contagiar, o ciumento passa a achar que os homens da festa olhavam para a sua amada.

Essa senhora procurou o Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública para orientação de como procederia para sair dessa loucura. Passados vinte e dois anos de relacionamento, três filhos, e muito sofrimento, decidiu finalizar. Foi informada que passou por quase todas as violências domésticas descritas na Lei Maria da Penha, já que, de vez em quando, no auge das crises, era empurrada e sacudida pelo “Amor”.

Poderia simplificar tudo isso e sofrer menos? Como muitas mulheres, esperou que um “milagre” acontecesse. Não ocorreu. Decidiu, por ser conhecida socialmente, o divórcio sem a lavratura de boletim de ocorrências. Irascível, o homem não queria a separação, mas, teve que suportar. Ela é outra pessoa. Hoje pode viver. Entretanto, daria para abreviar tudo isso. É quase impossível uma mudança de comportamento dos ciumentos. Às vezes, a insistência pode custar uma vida

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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