Existe uma diferença quase que esmagadora entre as duas realidades em que estamos situados, a do inconsciente que se adequa a categoria sonho e a possivelmente palpável a qual chamamos de realidade. Querer ser, é diferente de poder ser. Desde pequenos descobrimos que embora essas palavras se assemelhem na linguística, elas nada se assemelham na prática cotidiana. Aos 6 anos você sonha em ter 10, só para dizer que tem uma idade com dois dígitos. Aos 12 você sonha em ter 15 porque acredita que vai começar a ter uma vida social, aos 15 você sonha em ter 18, mudar de país, poder dirigir, viver nas baladas, trabalhar, alavancar vôos extremamente altos e desfrutar da liberdade que na sua mente lhe fora “privada” durante sua vida com seus pais. Tudo bobagem, e quanto mais o tempo passa mais sentimos essa diferença drástica entre nossos sonhos e a nossa realidade.

O cara perfeito que te manda flores e diz que te ama, ele pode até existir, mais talvez não neste presente da sua vida. Você vai tirar sua carteira de motorista com dezoito anos, mais isso não significa que você vai parar de pegar ônibus, a não ser que seus pais tenham condições de lhe dar um carro. E depois dos 18? Bom, depois desse ninguém quer mais contar, a idade pesa, e você sente cada vez mais seus sonhos sendo deixados de lado para a realidade tomar seu lugar. A responsabilidade aumenta, suas brinquedos viraram livros, que viraram pastas, que viraram trabalho. Seu choro de criança virou magia, virou raiva, ficou entalado, não adianta mais chorar, ninguém vai te confortar com uma balinha que fará com que o você se sinta a pessoa mais amada do mundo. Sua risada não vai ter mais a mesma graça, não mais ser mais tão “gostosa” suas gracinhas serão ridículas e seu jeito de falar será apenas mais um entre tantos.

Entre esses confrontos do sonho e da realidade eu prefiro permanecer inerte. Viver de palavras, ou de coisas que me façam alucinadamente retomar o que deixei para trás. Mais a vida não volta, e se voltasse não seria diferente, sabe porquê? Por quê nós teríamos milhões de oportunidades de retomar ao ponto exato, e faríamos tudo de novo só pelo prazer que da viver essas sensações. A diferença entre o ser e o querer estar no existir. Este sim é doloroso, é amargo e ao mesmo tempo maravilhoso. Quem sabe o que vive entre céus e terra afinal?

As vezes me pego observando pelas ruas as pessoas que cruzam, e tento de alguma forma encontrar o que elas perderam no tempo, qual o querer e o ser que elas carregam dentro de si. É inútil, uma vez que mal consigo decifrar estes meus conceitos hipócritas de ser e não ser. No fim das contas, tudo que sei que quero, não posso ter. Ai está o ponto, entre o querer e o ser. Voltar e não poder se quer reviver aquele momento. Doí, é nostálgico. E não vai passar.

O que nos resta em mãos é um universo inteiro a ser desbravado com o coração aberto, conflitos, sensações, amores e des-amores, tudo tão intenso para os nossos olhos tão incrédulos, dos primeiros anos adultos.

Voltar? Não posso. Esquecer? Não consigo. Reviver? Quem sabe, um dia.

Marina Pontes – Cinderela de Papel – Colaboradora Dominical do Blog da Michelle

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  1. Carolina M disse:

    Muito Bom!
    Me lembrou a janela de Johari.

    Beijo Meninas

    Carolina

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